sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Luísa terminou a tarefa. Rescendia toda ao cheiro áspero e
simples do sabão. O trabalho fizera-lhe calor. Olhou a torneira
grande, jorrando água límpida. Sentia um calor... Subitamente
surgiu-lhe uma déia. Tirou a roupa, abriu a torneira até o fim,
e a água gelada correu-lhe pelo corpo, arrancando-lhe um grito
de frio. Aquele banho improvisado fazia-a rir de prazer. De sua
banheira abrangia uma vista maravilhosa, sob um sol ardente.
Um momento ficou séria, imóvel. O romance inacabado, a
confissão achada. Ficou absorta, uma ruga na testa e nos
cantos dos lábios. A confissão. Mas a água corria gelada sobre
seu corpo e reclamava ruidosamente sua atenção. Um calor bom
já circulava em suas veias. De repente, teve com um sorriso, um
pensamento. Ele voltaria. Ele voltaria. Olhou em torno de si a
manhã perfeita, respirando profundamente e sentindo, quase com
orgulho, o coração bater cadenciado e cheio de vida. Um morno
raio de sol envolveu-a. Riu. Ele voltaria, porque ela era a mais forte
.

Clarice Lispector, último parágrafo 1º trabalho publicado,
conto de ficção TRIUNFO, no dia 25 de maio de 1940, no semanário
Pan, de Tasso da Silveira.

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