sábado, 12 de dezembro de 2009

Ato I,


Eu tenho o teor de um ator de teatro,
tenho um olhar trágico e um riso irrisório.
Eu tenho um corpo dramático e inglório,
um jeito de sentir clássico,
mas não sou óbvio, sou um obus no meio do passeio público.
Eu tenho um grito sólido e úmido
que se engendrou em mim miúdo
e que hoje cresce e ganha o mundo.
Eu tenho as entranhas da tragédia
mas tenho o tempo certo pra comédia.
Eu rio, desgraçadamente, sobre a corda-bamba,
sem nenhuma rede de segurança
atravesso a faixa que vai da dor a esperança.
E o meu número é cronometrado por um relógio-bomba.
Eu não tenho humor, eu tenho húmus
e entro no palco sem cenário ou luz.

Eu tenho o teor de um ator de teatro,
mas não decoro um texto,
pois eu sigo a textura do momento.
Eu não copio de outrem algum sentimento,
eu represento, somente, a leitura que o meu espírito
faz das elegias que eu não recito.
Eu não atuo em Farsa e não atiro facas
na minha partner, numa roda em movimento.
Eu não faço Kabuki, eu não uso máscaras.
Exponho a cara ao tapa e não estanco o sangramento.
Eu tenho uma sinceridade que não segue roteiro.
Eu tenho a arte de ser verdadeiro. 

(Claúdfio Costa - retirado da comunidade de Clarice Lispector, no site de relacionamentos ORKUT.)

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