sábado, 20 de março de 2010

"- Suas fotos estão todas mortas.Por mais que tentem se passar por vivas.
- Porque mortas, se eu estou aqui, viva?
- porque agora não está se vendo, mas no espelho, no instante em que se via, não estava mais viva. Para se ver é preciso fechar a vida em um atimo, como diante de uma maquina fotografica.A senhora assume uma pose e posar é como se tornar uma estatua por um momento. A vida se move continuamente e nunca pode ver a si mesma.
- Quer dizer que eu, viva, nunca me vi?
- Jamais como eu posso vê-la.
- É verdade...
- A senhora só pode conhecer-se posando: estatua sem vida. Quando alguem vive, vive sem se ver. Conhecer-se é morrer. A senhora fica tanto tempo se olhando nesse espelho, em todos os espelhos, porque não vive.
Não sabe, não pode ou não quer viver.Quer se conhecer em excesso - e não vive.
- Nada disso! Ao contrario, não consigo ficar parada nem um instante.
- Mas quer sempre se ver. Em cada ato de sua vida. É como se tivesse sempre diante de si a própria imagem, em cada ato, em cada movimento.
A fonte do seu sofrimento talvez seja isso. A senhora não quer que o seu sentimento seja cego, obrigando-o a abrir os olhos e a se ver num espelho que sempre o reflete. E o sentimento assim que se vê, se congela.
Não se pode viver diante de um espelho. Procure não se ver nunca. Porque, de qualquer modo, jamais conseguirá se conhecer pelos olhos dos outros. Sendo assim, de que vale conhecer-se só para si? Pode acontecer de a senhora não compreender mais porque deveria ter aquela imagem que o espelho lhe devolve..."

(Luigi Piradello)

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