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quarta-feira, 3 de novembro de 2010


Somos ultrapassados por nossa pressa. Só percebemos o amor a tempo de lembrá-lo, só descobrimos que era a última chance depois de perdê-la, só aprendemos depois que os erros foram cometidos, que as oportunidades passaram, que os anos foram estampando nosso rosto. Beijaríamos mais doce se soubéssemos que aquele seria o último beijo, gravaríamos a expressão do riso, o som do riso, a leveza do riso, o porque do riso. Amaríamos mais quem nos importa do que nosso egoísmo. Amaríamos mais e apenas isto nos salvaria de uma vida comum.

Cáh Morandi.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010


Compreendo enfim o que se passou,
Não era meu peito já frio,
Nem meu coração congelado que morriam,
Eras tu, amor da minha vida
Que ali sumias pouco a pouco!
Te sinto agora aqui desfalecer.
Perdendo a força, se apagando
Dormindo pra sempre dentro de mim.
Cáh Morandi

sábado, 7 de agosto de 2010

Casa abandonada.


É que agora – aqui dentro – a casa foi ficando meio empoeirada, como se toda essa mobília sentimental não tivesse sendo mais usada, a janela foi deixada aberta e tanto vento foi passando, levando as cores dos retratos e deixando o pó como ressarcimento. Aqui em casa não tem mais conforto, tudo virou incômodo, e às vezes nem em casa eu me sinto. Não tem mais abraço, não tem mais teto para pintar de sonhos toda a noite, nem tapete colorido para deitar no domingo. Tudo daqui foi sumindo, não tem mais ninguém nessa casa, só um eco se espalha quando eu volto e os passos ficam rangendo o assoalho, e fica uma sensação estranha de ver cinza onde tudo foi festa e euforia. Na porta de entrada eu sempre pedia um beijo, até que um dia o beijo foi de despedida.


(Cáh Morandi)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

(...) era como ele me fazia rir
não o riso, mas era como
ele me afundava as mãos
e me torturava de cócegas
nunca foram as gargalhadas
era essa maneira única em
que ele me tirava todo ar
e me matava por um triz
era como me fazia tão feliz
antes e depois de um sorriso

(Cáh Morandi)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Em tudo,

ele não está por perto
é um abraço no deserto
é a solidão me dando um abismo
é puro egoísmo do meu coração
que não compreende
que de mim desprende
e quer voar sem ter asas
te procurando em todas as casas
em todas as coisas
em tudo que tem
em tudo que vai e vem
em tudo que fica
em tudo que chega
em tudo que palpita
em tudo que duvida
que possa te encontrar


(Cáh Morandi)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

"...o amor é um nobre ofício, o amor é um bom negócio."

(Viver de amor, Chico Buarque de Hollanda)

Na prática aprendi que o amor não tem laços com a desconfiança. Amor de pai, de mãe, de irmão, amor de sangue. Outros amores até podem ser, mas outros amores que são apenas afluentes do amor que nos é oferecido incondicionalmente assim que gritamos a primeira vez para o mundo. Amor hereditário, que já é dado e destinado a ser intransferível e com tendência apenas a se multiplicar por todos os anos que tivermos de vida. Ou ainda mais profundo e doloroso: amor que se tornará ainda maior, ainda mais obrigatório de se levar, se a lei da vida raptar alguns de nós na medida que o tempo se estende. Na vida e na morte o amor de sangue não se dispersa, não se confunde com outro sentimento, não ameniza, não diminui com as falhas e faltas de quem amamos. É o único amor que não exige absolutamente nada para acontecer: nós nascemos e já está ali, junto, forte, encantado.
Com o nascimento dos meus irmãos, comecei a julgar de que o amor que minha mãe tinha para os filhos, agora era divido em três, e que para mim tinha sobrado quase nada ou nem sobrado. Não, não é ciúme. Ciúme é um pouco mais mesquinho e frio do que desconfiar a falta do amor. Embora não deixe de ser tão egoísta desconfiar da força do amor materno.
Minhas certezas aumentaram quando saí de casa para morar sozinha. O trabalho e o estudo me consumiam a semana toda, e às vezes, os fins de semana. Minha mãe, apesar de não trabalhar fora, também era consumida pelas tarefas da casa, por cuidar dos meus irmãos menores e principalmente por passar horas procurando por um bom sorriso para receber meu pai todos os meios dias e os fins de tardes. Tive medo que o tempo para nós fosse se tornando o abismo entre nossas confidências e que aos poucos fossem eliminando o amor que ela tivesse por mim. Enquanto o meu amor por ela se tornava ainda maior, ainda mais admirado, ainda mais sedento do seu colo.
Em uma tarde de pleno verão de janeiro, liguei para ela avisando que iria visitá-la. Peguei a moto e não andei 500 metros até que um cara cortasse minha frente e me fizesse mergulhar contra o asfalto. Rolei até parar sentada, a primeira coisa que pedi era para que ligassem para minha mãe. Parece que foi em um piscar de olhos que vi seu carro quase que flutuando sobre a rua até o meu encontro. Quando ela me viu pulou do carro, ligado mesmo, com as roupas que as tarefas de casa lhe emprestavam, com o rosto como se fosse uma lágrima enorme. Agora eu podia chorar, as dores então vieram, as feridas ardiam e manchavam o chão do sangue vermelho bonito que herdei de minha mãe. Não tinha mais medo, minha mãe trouxe seu amor para me embalar, para fazer os primeiros e indispensáveis socorros. Estava tudo bem, percebi que se eu morresse ali, metade de minha mãe sobreviveria para levar meus irmãos por suas vidas, a outra se manteria viva para matá-la devagar e sufocantemente, para beijar sua face e lembrá-la de minha ausência.
Logo voltei para casa, sabia que nada mais me tiraria dos braços longos e cuidadosos que minha mãe me estendia. Nunca soube nada do amor, dos seus poderes, da sua grandiosidade, da sua capacidade de aproximar as pessoas. Talvez eu nunca venha a descobrir. A única que sei, é que o amor da minha mãe me salvou, não apenas do medo de morrer, mas sim de ter partido sem reconhecê-lo.


(Cáh Morandi)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sobre Fazer Sonhar. . .



Nunca consegui enumerar todas as coisas que eu gostava e as que você me fazia sentir. Primeiro, porque eram muitas. Segundo, porque algumas não tinham nome. Éramos extremamente felizes porque acreditávamos no amor, porque de início não víamos nada de empecilho, não víamos distancias, sejam de idades ou sejam de cidades, nós apenas vivíamos aquele presente que a vida parecia nos dar. E quando começaram surgir os planos, os sonhos, e fomos dando nomes para eles, a dar local e datas, e eu, então, parecendo um foguete a voar pelo céu de felicidade, vi você se afastando, medroso, inseguro. Mas que direito tinha eu de te fazer estar comigo todos os dias de amanhã? Que direito tinha eu de amarrar tuas mãos com a minhas? Não precisavas ter medo, tu não tinhas que arranjar uma forma de fazer tudo acontecer, tua única obrigação era me fazer sonhar.




Cáh Morandi.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Cai uma chuva gelada por trás da vidraça. Os dedos dos pés impacientes dentro da meia de lã, as mãos se aquecendo com a xícara de café, os lábios sendo mordiscados com os dentes, um pijama velho, um moletom jogado em cima, os cabelos bem amarrados, os olhos pequenos e perdidos acompanhando o desenho que água faz no vidro da janela.Não me importo em estar assim despojada, só quero me sentir o máximo bem que puder, embora seja improvável isso acontecer em uma noite de sexta, quando o fim de semana chega e você não tem ninguém. Ninguém que vá te abraçar enquanto a chuva cai lá fora. Ninguém que vá acalmar a tempestade que acontece dentro de você. Ninguém que vá te dar a mão quando você tem tanto receio de estar sozinha. Ninguém que ficaria ali, de graça, deitado ao teu lado escutando os trovões. Por um instante você pensa que isso é tão triste, que isso pode ser tão miserável e o amor parece ser uma esmola que você pede em troca de um sorriso, por mais falso que isso pareça. Frágil, o barulho da chuva viola o silêncio do pensamento, da lembrança, da doce ignorância em planejar o futuro. Você tem medo, porque você vê que tem tanta lágrima por dentro, escondida, calada, tímida e um dia chuvoso e frio é tão pouco comparado a tudo que você esconde atrás de um rosto discretamente limpo e doce.

(Cáh Morandi)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

"Em pouco tempo não serás mais o que és..."

(Título: O Mundo é um moinho, Cartola)
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Lembro da vez que pressenti que nunca mais iria voltar. Eu estava em casa, era quase sete da noite e agosto terminava. Não lembro do dia e nem do ano, mas embora fosse uma quarta-feira quero lhe contar que foi em um domingo. Os domingos são os dias mais decisivos, mais solitários e mais delicados para se escrever. Então prefiro acreditar que fui embora em um domin
go, fica mais bonito assim.
Eu tomava uma xícara de café debruçada na janela, vendo as luzes da cidade se acenderem uma atrás das outras, prédio por prédio, casa por casa, carro por carro. Ele estava no sofá mudando os canais da tevê como quem não se prende a nada. Eu lhe falava das luzes que estavam acendendo, de como era bonito e melancólico aquele laranja que vai se dispersando com o fim do dia, dando vagarosamente espaço à noite. Até que tudo foi ficando tão escuro e o café tão frio, e não reconheci mais aquele homem na sala, nem aquela cidade e caminhei perdida até um espelho: eu também já não me reconhecia.
Chega um dia em que perdemos a nossa identidade, tudo que nossos pais nos ensinaram, tudo que antes julgávamos importante, todo o nosso narcisismo, nossa vã inteligência, nosso egocentrismo, religiosidade ou falta de crença, nossos sonhos de criança, nossas bestialidades adolescentes.
Você até pensa que está sentindo medo, mas não é medo. Depois você percebe que foi apenas uma turbulência, por que você acabou de começar a voar e não vai adiantar nenhum tipo de desespero. O que vai te levar ao abismo ou ao céu vai ser aquilo que você vai decidir no início do vôo: a firmeza ou a insegurança. E depois não há mais volta.
Esteja atento, não há nenhum aviso prévio, nenhum sintoma antecedente. Quase nem vai lembrar de muitas coisas, apenas da última vez que esteve sobre a plataforma, da última vez que sugou o ar, da última luz que acendia na cidade. Sempre será assim, fazemos as coisas de forma diferente, quando as fazemos a última vez.
Há apenas um dia decisivo em toda nossa vida: aquele em que optamos por nosso futuro. É o dia do vôo. Tudo que vivermos depois da escolha e do salto, será nossa vida inteira.
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(Cáh Morandi)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009


meu olhar e minha paixão
pelas coisas de fora
me fascinam e quase me levam
apesar da beleza quase que irresistível
apesar da doçura e do deslumbramento
apesar da vontade e querer de estar longe
a vida é uma cilada sem chances de fuga
eu quase me esqueço, mas quando me toco
quando a ventania começa a soprar mais forte
me vejo, me tenho e me lembro:
o amor é uma porta para dentro.


(Cáh Morandi)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Um dia nos tiram alguma coisa e não adianta se prevenir, se precaver ou ficar atento. Isso vai acontecer. Ninguém sai da vida inteiro e os que saíram, bom, eu não os conheci. Uma noite você vai estar perdida ou tão despercebida que irão tirar sua intimidade, e acredite: você vai sentir que anda nua por toda a vida. Um dia vão lhe tirar um riso, uma oportunidade, um direito, algo que você mais gosta ou aquilo que você mais preza. Talvez você perceba na hora, talvez você só perceba muito tempo depois. Não quero parecer pessimista, mas a realidade é assim. Acredite no que te digo: o que vão tirar de você é irrecuperável.

- Cáh Morandi.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

"E eu que pensei que o tempo fosse amigo..." (A distância, Toquinho).

"...again my heart sits upon a wall. Now from here where do I go?
I can't decide, I do not know..."

(Lawrence H Pfaff)

É ruim sentir falta, não é mesmo? Sentir falta de alguém que a gente não voltará a ter. Falta de alguém que a gente nem teve ainda. Falta de uma comida que a gente goste muito, mas que só tem num bristô na rua Brighton Beach, no Brooklyn, em New York. Falta da neve que caía no dia 07 de dezembro, de um ano que parecia não nos importar. Falta de um sol de dezembro, em pleno calor de quase verão brasileiro e se fazia planos de estar junto com aquele alguém a vida inteira. Falta de esperar o shopping abrir, para andar voltas sem gostar ou levar coisa alguma. Sentir falta da camiseta que de tão velha, teve que ser abandonada. Sentir falta de um lugar que não fomos, de alguém que não conhecemos, de uma vida que não optamos. Sentir falta dos dias que não irão voltar, do tempo que não poderemos repor, da nossa energia da juventude, da inocência que não passou do primeiro amor.
Os planos é que acabam com tudo, porque estão incluídos com todas as coisas que perdemos quando um amor se vai, quando os dias passam tão depressa que não percebemos, quando a sabedoria chega sem notarmos que nossos "vinte e poucos" já eram. A sensação de dor se torna maior, a perda se torna maior, as noites teimam em ser mais longas, e a ansiedade de queremos fazer tudo ao mesmo tempo nos atravessa. Devíamos viver sem perspectivas para o futuro, sem imaginar, sem criar demais, sem planejar muito e assim, quem sabe, viveríamos com mais intensidade os momentos que nos são permitidos. E as lembranças, no fim, ficariam mais vibrantes, mais detalhadas.
Sinto falta também justamente disso: de não conseguir arquivar as memórias com todos os detalhes. Memória devia guardar não somente “male mal” a imagem, mas também o cheiro, o gosto, o tato, o vento, o peso. Lembrança devia ser coisa mais viva, mais real, mais palpável, um quadro com a tinta fresca que não tem o direito de secar. Acho que não quero me conformar com as fotografias, com os vídeos, com as cartas. Quero me acostumar em poder trazer à tona, a qualquer hora, a qualquer tempo, o momento vivo, o instante exato.
Saber o caminho que passamos, é a forma mais segura de ir em frente.
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(Cáh Morandi)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

' Todo dia eu saio para roubar um pouco de alegria na vida de alguém, só que volto para casa mais triste do que antes por ser essa pequena ladra com olhos na felicidade alheia dos outros juntando risos aos poucos sem saber ser feliz. ''

Cáh Morandi

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

"... o sol desperta a cidade, e eu planto mais perguntas que respostas."

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É uma pena que muitas de nossas convicções só se tornem mais claras na medida que chegamos a maturidade. Cheguei até aqui e descobri que estou de mãos vazias. Que realmente as coisas são mais difíceis do que eu supunha, que realmente as responsabilidades chegam, que realmente o tempo passa mais rápido do que poderia notar. Envelhecer me tornou mais bossa nova, envelhecer me tornou mais próxima de um manual de instruções. Deixo de ser um monólogo, preciso de diálogos com extrema urgência, necessito de pessoas, de histórias, de experiências, desse contato mais pessoal que minha “auto-adolescência” não me permitiu.
Certas vezes, eu procurava coisas pequenas para me ocupar, coisas como conchinhas quebradas na beira do mar , como os finos raios de luz que atravessam as folhagens, coisas como decidir entre brincar na calçada ou na grama, como escolher a cor da roupa do personagem dos meus desenhos. Hoje tenho certeza absoluta de como aquilo era realmente importante, de como eu deveria me ocupar e preocupar com meus pequenos gestos. Voltar me faria criar lembranças mais bonitas, me faria mais preocupada e valorosa com o tempo.
Estranhamente, crescer é ter uma vontade enorme de encontrar as crianças que um dia fomos. Crescer tem mais a ver com se encontrar, do que se descobrir. Crescer é saber que a única magia que nos ajudará a alcançar os sonhos, é acordar às seis e dormir à uma. Crescer, no fundo, é diminuir nossa sensibilidade, nossa percepção.
Sinto até hoje a falta de alguma coisa. Qualquer coisa que não sei o que é. Já senti melhor o vento, já fui mais atenta com os livros, já tive uma letra mais bonita, já tive mais tempo para os amigos, já fui menos chata com a comida, já tomei refrigerante sem preocupação, já andei muito de pés descalços, já corri mais do que meu fôlego. E viver não me matou. Hoje me tornei tão cuidadosa a ponto de ser chata, a ponto de colocar cautela na frente da emoção. Hoje tudo tem que ser planejado. Hoje nem pensar em andar descalça ou tirar alguns minutos para me preocupar com raios de sol. Meu jardim é mais do jardineiro do que meu, meu jardim me vê por trás das vidraças todas as manhãs. A vidraça impede de nos tocarmos.A vidraça é a barreira intransponível entre meu relógio e o cheiro da grama amanhecida. Sinto falta do meu jardim. Sinto falta de quem eu era quando estava no meu jardim.
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Cáh Morandi
Tenho uma vontade besta de esperar o futuro desejando que o passado retroceda para passar pelos dias é preciso deixar o coração distraído, não mais do que sempre esteve, é preciso deixar o coração sem perigo, sem oferecê-lo de abrigo a mais alguém que o melhor nos aconteça se quiser, de mim esqueça mas de mim, por favor, nunca, nunca, nunca desapareça.