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terça-feira, 24 de maio de 2011

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As dificuldades que sinto ao falar, certamente incríveis para os outros, derivam do facto de que o meu pensamento ou antes o conteúdo da minha consciência é absolutamente nebuloso, se bem que nele repouse, tranquilo e satisfeito comigo, enquanto que uma conversação humana exige minúcia, consistência e um encadeamento perpétuo. Todas as coisas que não existem de maneira nenhuma em mim. Ninguém consentirá em ficar comigo nas nuvens e mesmo se o consentisse eu não poderia apesar disso espalhar a bruma para fora da minha cabeça, entre dois seres humanos ela evapora-se e não é nada.


Franz Kafka In: Antologia de Páginas Íntimas 
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“E lá ficaram, mas não tão entregues como durante a noite. Ela buscava algo e ele buscava algo, ambos furiosos, fazendo caretas; enterrando a cabeça um no peito do outro eles se buscavam e seus abraços e seus corpos arqueados não os faziam esquecer, mas lembrar-se da obrigação de continuar buscando; como os cães raspam desesperadamente o chão, eles raspavam os seus corpos e, desamparados, decepcionados, para alcançar ainda uma última felicidade, eles às vezes passavam à larga língua sobre o roso do outro. Só o cansaço os acalmava e os tornava mutuamente gratos.” 

Franz Kafka.

sábado, 1 de maio de 2010

Naquela manhã ensolarada e sinistra de Praga, Kafka acordou, retirou toda sua maquiagem borrada, fez uma nova maquiagem bem carregada, chamou Murillo e Ana Flavia pra tambem fazerem a mesma maquiagem carregada e depois golpeou-lhes com furor usando seu abajour cor de carne, enrolou-os no lençol azul e queimou-os; enquanto ouvia o crepitar de seus ossos no fogo, tomou vinho seco branco.

(Franz Kafka)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Em certas ocasiões o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos em outra direção. Mas então a tempestade muda de direção e o segue. Você muda mais uma vez seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha. As mudanças se repetem muitas e muitas vezes como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a tempestade não é algo independente , vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo. 

Kafka à Beira Mar - Haruki Murakami