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domingo, 16 de outubro de 2011


"Eu havia compreendido há muitos anos que não existe no mundo nada que não seja germe de um inferno possível, um rosto, um palavra, uma bússola, um anúncio de cigarros, poderiam enlouquecer uma pessoa, se esta não conseguisse esquecê-los."

(Jorges Luis Borges)

quinta-feira, 18 de março de 2010

O espelho.

Quando menino, eu temia que o espelho
Me mostrasse outro rosto ou uma cega
Máscara impessoal que ocultaria
Algo na certa atroz. Temi também
Que o silencioso tempo do espelho
Se desviasse do curso cotidiano
Dos horários do homem e hospedasse
Em seu vago extremo imaginário
Seres e formas e matizes novos.
(Não disse isso a ninguém, menino tímido.)
Agora temo que o espelho encerre
O verdadeiro rosto de minha alma,
Lastimada de sombras e de culpas,
O que Deus vê e talvez vejam os homens.

[Jorge Luis Borges]

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009



É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta.

- Jorge Luis Borges in “Elogio da Sombra”