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quinta-feira, 27 de outubro de 2011


"Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
Eu soubesse repor."

(Manuel Bandeira - do poema: IMPOSSIVEL CARINHO).

quinta-feira, 24 de março de 2011


Você me conhece?
(Frase dos mascarados de antigamente)


- Você me conhece?
- Não conheço não.
- Ah, como fui bela!
Tive grandes olhos,
que a paixão dos homens
(estranha paixão!)
Fazia maiores...
Fazia infinitos.
Diz: não me conheces?
- Não conheço não.


- Se eu falava, um mundo
Irreal se abria
à tua visão!
Tu não me escutavas:
Perdido ficavas
Na noite sem fundo
Do que eu te dizia...
Era a minha fala
Canto e persuasão...
Pois não me conheces?
- Não conheço não.
- Choraste em meus braços
- Não me lembro não.


- Por mim quantas vezes
O sono perdeste
E ciúmes atrozes
Te despedaçaram!


Por mim quantas vezes
Quase tu mataste,
Quase te mataste,
Quase te mataram!
Agora me fitas
E não me conheces?


- Não conheço não.
Conheço que a vida
É sonho, ilusão.
Conheço que a vida,
A vida é traição.

(Manuel Bandeira.)

domingo, 16 de janeiro de 2011



Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
.
(Manuel Bandeira)

terça-feira, 3 de agosto de 2010


Quando estás vestidas,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite

Manuel Bandeira

domingo, 25 de abril de 2010

Quero a delícia de poder
sentir as coisas mais simples.

Manuel Bandeira

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Neologismo.


Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

(Manuel Bandeira)

terça-feira, 30 de março de 2010


Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.

(Manuel Bandeira)

sexta-feira, 19 de março de 2010



"O poeta é um abstrator de quinta essências líricas. É um sujeito que sabe desentranhar a poesia que há escodida nas coisas e nas palavras, nos gritos, nos sonhos. A poesia que há em tudo, porque a poesia é o éter em que tudo mergulha, e que tudo penetra.

O poeta muitas vezes se delicia em criar poesia, não tirando-a de si, dos seus sentimentos, dos seus sonhos, das suas experiências, mas "desgangarizando-a", como disse Couto de Barros, dos minérios em que ela jaz sepultada (...)

Há quem censure o poeta por isso. Não me parece avisada tal atitude: a poesia é como o rádium - o milésimo de miligrama constitui uma riqueza que não se deve deixar de perder."

(Poema Desentranhado, in Flauta de Papel, 1957)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O impossível carinho.


Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

(Manuel Bandeira)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009


Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.

(Manuel Bandeira)