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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012




"Não se pode ser infeliz, não se pode morrer em vida, não se pode desistir de amar, de criar. Não se pode: é pecado, é proibido — verbotten, não é assim em German? Não é possível adiar a vida. Há um mês recortei uma frase, não sei de quem, do jornal, e colei em frente à minha escrivaninha: “Se o homem não vem ao encontro do destino, será soterrado por ele".
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(Caio F. Abreu)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011



"Dentro do que se podia tocar, escondido, vivia também o que só era visível quando o olho ficava tão inundado de luz que enxergava este invisível no meio do tocável. Eu não sabia."
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(Caio F. Abreu)

sábado, 3 de dezembro de 2011


Nenhuma luta haverá jamais de me embrutecer,
nenhum cotidiano será tão pesado a ponto de me esmagar,
nenhuma carga me fará baixar a cabeça.
Quero ser diferente. Eu sou.
E se não for, me farei.

Caio F. Abreu

terça-feira, 21 de setembro de 2010


Era coração, aquele escondido pedaço de ser onde fica guardado o que se sente e o que se pensa sobre as pessoas das quais se gosta? Devia ser.
 .Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 10 de setembro de 2010


Te escrevo com um cigarro aceso e uma xícara de chá de boldo. A escrivaninha é muito antiga, daquelas que têm uma tampa, parece piano. Tem um pôster com Garcia Lorca na minha frente. Um retrato enorme de Virginia Woolf. E posso ver na estante assim, de repente, todo o Proust, e muito Rimbaud, e Verlaine, Faulkner, Ítalo Svevo, William Blake. Umas reproduções de Picasso. Outras de Da Vinci. Um biscuit com um pierrô tão patético. Uma pedra esotérica ainda de Stonehenge, Inglaterra, uma caixinha indiana. Todos os meus pedaços aqui.

E você não me conhece, eu não conheço você.

Caio Fernando Abreu.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Gosto das tuas notícias e do teu feeling.
Claro, claro que vem. O amor tá solto no ar de setembro. Ando cheio de fé.
 
Caio Fernando Abreu.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010


Esta coisa terrível de não ter ninguém para ouvir o meu grito.
Esta coisa terrível de estar nesta ilha desde não sei quando.
No começo eu esperava, que viesse alguém, um dia.
Um avião, um navio, uma nave espacial.
Não veio nada, não veio ninguém.
Só este céu limpo, às vezes escuro, às vezes claro,
mas sempre limpo, uma limpeza que continua
além de qualquer coisa que esteja nele.
Talvez tudo já tenha terminado
e não exista ninguém mais para lá do mar mais longe que eu vejo.

(Caio F. Abreu - in Inventário do irremediável)

terça-feira, 31 de agosto de 2010


As vezes, sobretudo agora, verão e lua quase cheia, me surpreendo melancólico pelas noites a suspirar na sacada espanhola, com vontade de chorar. Choro quando consigo. Ou ouço Caetano cantando Contigo en la distancia, e choro mais. Não tenho pena de mim, mas por vezes sinto falta de amor. Fico sempre muito só.
Caio F. Abreu in “Cartas”

segunda-feira, 30 de agosto de 2010



Tenho impressão que alguma coisa na minha cabeça muda. E muda forte. Não sei bem o quê. E como se estivesse muito mais velho. Assim como se um contato frontal com a morte fosse a única coisa que faltava para ficar definitivamente adulto. Pois é. Era terrivelmente real. E feio. E vazio — alguma coisa já não estava mais lá. A alma? Pode ser.
Caio F. Abreu in “Cartas”

sábado, 21 de agosto de 2010



"Hoje eu saí de casa tão feliz,
que nem me lembrei que em algumas horas
a tristeza bate, me sacode e me faz sentir dores
que eu não imaginava que continuavam ali."
 

Caio Fernando Abreu.

terça-feira, 17 de agosto de 2010


"Era preciso que fosse um momento absolutamente perfeito. — Ele foi dizendo, uma tarde afinal de Junho. Ela esperava, ele respirou sete vezes, profundamente. Eu não consigo entender nada do que se passa meu amor secreto, meu amor calado."

Caio Fernando Abreu.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010


Por trás da palma da mão contra o peito, por trás do pano da
camisa, entre massas de carne entremeadas de músculos, nervos,
gorduras, veias, ossos, o coração batia disparado.

Caio Fernando Abreu.

terça-feira, 3 de agosto de 2010


"Como chegar para alguém e dizer de repente eu te amo para depois explicar que esse amor independia de qualquer solicitação, que lhe bastava amar, como uma coisa que só por ser sentida e formulada se completa e se cumpre? Pois se ninguém aceitaria ser objeto de amor sem exigências..."

Caio Fernando Abreu.

terça-feira, 27 de julho de 2010


Posso não saber nada do coração das gentes, mas tenho a impressão, de que, de tudo, o pior é quando entra a segunda parte da letra de “Atrás da porta”, ali no quando “dei pra maldizer o nosso lar pra sujar teu nome, te humilhar”. Chico Buarque é ótimo pra essas coisas. Billie Holiday é ótima pra essas coisas. E Drummond quando ensina que “o amor, caro colega, esse não consola nunca de núncaras”. Aí você saca que toda música, toda letra, todo poema, todo filme, toda peça, todo papo, todo romance, tudo e todos o tempo todo, antes, agora e depois, falam disso. Que o que você sente é único & indivisível e é exatamente igual à dor coletiva, da Rocinha a Biarritz.

Caio Fernando Abreu.

terça-feira, 20 de julho de 2010


Comecei a me perder pela cidade. Selecionei vinte gatos & gatas mais lindos do pedaço, dez semifinalistas, cinco finalistas, transei todos. Saí sem parar. De bar em bar, telefone tocando sem parar. Explodindo de vitalidade e saúde e sedução: capacidade de superação. Puxa, gente, como sou maravilhoso, como sou maduro e equilibrado, como sei dar a volta por cima, como não sou careta, como sou moderno e liberadésimo. Aí, desabou. Dez dias. De manhã bem cedo, chegando da vida, percebi uma pequena rachadura na parede externa do edifício. Avançava lentissimamente. Ao meio-dia rachou de alto a baixo. O edifício veio ao chão: me interna, pedi pra mãe, estou infeliz pra caralho. Peguei o pacote de cartas que tinha pedido de volta (fiz absolutamente todos os números, o problema é que a plateia estava vazia: ninguém aplaudiu minha melhor sequência de sapateado), coloquei aos pés de Ogum.

Caio Fernando Abreu.

segunda-feira, 19 de julho de 2010


Quando percebi, estava olhando para as pessoas como se soubesse alguma coisa delas que nem elas mesmas sabiam. Ou então como se as transpassasse. Eram bichos brancos e sujos. Quando as transpassava, via o que tinha sido antes delas, e o que tinha sido antes delas era uma coisa sem cor nem forma, eu podia deixar meus olhos descansarem lá porque eles não se preocupavam em dar nome ou cor ou jeito a nenhuma coisa, era um branco liso e calmo. Mas esse branco liso e calmo me assustava e, quando tentava voltar atrás, começava a ver nas pessoas o que elas não sabiam de si mesmas, e isso era ainda mais terrível. O que elas não sabiam de si era tão assustador que me sentia como se tivesse violado uma sepultura fechada havia vários séculos. A maldição cairia sobre mim: ninguém me perdoaria jamais se soubesse que eu ousara. Ninguém me perdoaria se soubesse que eu sei o que elas são, o que elas eram.

Caio Fernando Abreu.

quarta-feira, 14 de julho de 2010


E os caras-pintadas, meu Deus, vão ficar com as caras no chão! Aprenderão na
carne aquilo que sempre ouviram dizer: o Brasil, meus filhos, é um país sem memória.

Tanto que, até hoje, ainda não percebeu que este horror onde estamos atolados não passa o saldo legado por ele. A impunidade para ele e seus capangas nos deixou uma inversão moral nojenta: se você é honesto, você é trouxa. Não viram ele? Se ainda não, arregalem bem os fatigados olhos: exatamente um ano depois de ter sido corrido, armando todas para voltar.
Não digo nem escrevo o nome dele. Como aquela palavra, o contrário de sorte; cuja
carga negativa desaba sobre quem a pronuncia. Pois isso é o que vai acontecer a quem se deixar enganar outra vez. Não digam que não avisei. Só vai ser difícil me achar para dizer qualquer coisa. Porque se isso acontecer mesmo — além da imaginação — peço aos amigos que me joguem num hospício e me deixem lá. Incomunicável.


Caio Fernando Abreu.

terça-feira, 13 de julho de 2010


Tenho andado muito de ônibus. Sento na janela e fico olhando o povo: é tristíssimo. Nunca vi antes caras tão amargas. E pobres, muito pobres. Dói de ver. E não se pode fazer nada. Tenho feito fantasias inconseqüentes de ir morar no interior. Um dia, quem sabe. São Paulo estrangula aos poucos, e te rouba energia, e não te repõe.

- Caio F. Abreu in “Cartas”

sexta-feira, 9 de julho de 2010


As cidades grandes como esta têm dessas coisas — você não precisa simular interesse algum pelas pessoas em volta, elas não exigem mais que um bom-dia, boa-tarde, boa-noite, às vezes nem isso, silêncio nas horas em que se costuma fazer silêncio, ruído nas horas em que usualmente se faz ruído. Não faço ruídos nem mesmo nessas horas: eliminei máquinas, televisões, rádios, embora goste de música. Mas quando quero ouvi-la, canto para mim mesmo quase sem voz um som irregular, cheio de altos e baixos, que vem do fundo da garganta, sem palavras.

Caio Fernando Abreu.

quinta-feira, 8 de julho de 2010


Maninha, precisava ser agora? Em pleno verão, o sol quase em Aquário. Sei que teu coração não aguentava mais tanta barra. Sacanagem... E juro que agora eu ouvi você rindo assim: quá-quá-rá-quá-quá. Tô sentindo um oco, Hélice. Tão ruim. O dia não conseguiu chover: eu queria agora chorar todo o choro que o dia não chorou por ti. Não consigo. Eu tenho a impressão de que poderia reconstituir, dias após dia, desde uma daquelas manhãs de domingo no Cine Castelo (que coisa mágica, eu tinha 12 anos, você 15) até estas duas da madrugada de hoje? Consigo não, Che. A gente, que é gaúcho, se entende. O tempo existe, Pimentinha, e passa, leva no arrastão as coisas e as pessoas que não morrem: ficam encantadas. Y solo resta el silencio, un ondulado silencio...Nós te amávamos tanto, tanto. Guria. Até.

Caio Fernando Abreu.