Eu queria que desaprendesses. Que faltasses na escola. Que não fosse carnaval. Que as tuas sandálias rompessem. Que teus confetes fossem todos de uma cor. Que a tua lancheira trouxesse vinho de manhã. Que esse teu amor fosse um segundo. Um lampejo do delírio no avexo, e eu trouxesse o verdadeiro, o imorredouro. Então queria que teu nome fosse amora. Que eu deitasse ao teu lado sem sentir o tempo. Queria que tu me beijasses e me roubasses alguma saudade. Que eu de longe te cheirasse. Que tua voz fosse uma espécie de radar biônico para que eu não pudesse mais duvidar. Que eu te esperasse na terça, e nos dias da semana que sobrassem. Que eu fosse um poeta, mesmo que caduco, só para te ninar. Eu queria tanta coisa. Tanta coisa ao seu lado. Esses meus últimos anos. Esses meus pensamentos. Eu queria que você acordasse tarde. Que jogasse as rosas no chão e teus pés manchassem com o vermelho o azulejo dos dias. Eu queria que tomasses essa minha revolta por não ter te conhecido antes, por amor. Porque essas tuas mãos trêmulas. Esses teus olhos marejando por essa tua boca cheia de saliva, é o que acontece.
Toda vez que se devora o humano que se esconde dentro de nós.
(Leometáfora)
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quinta-feira, 18 de março de 2010
sábado, 30 de janeiro de 2010
Oh tristeza que irrompe, saudade malévola. Minha boca contida não grita. E parado no precipício não pulo. Ah covarde sem memória! Quando tu aprendes? Que essa balburdia de amar não te cabe. E esse murmurinho do encanto logo passa e fica a certeza voraz de tua loucura. Logo passa os dias e ela virá te incomodar com tantas curvas. Não virão também os carrosséis da dor? Então porque persegues o infinito desconhecido que é o outro?
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Ha uma mulher no poema que me conhece. Que entende as falas dos meus personagens e dialoga com eles. Ela não teme meus movimentos bruscos, minha soltura nas mãos incapazes de reter o contido. Perdoa-me dos enganos, das risadas fora de hora. A mulher no poema me excita com a voz. Me excita quando depois de me contar uma historia me pergunta: – Você me entende? – Pra depois sorrir porque sabe que eu parei de prestar atenção nas palavras, no exato segundo que ela começou a mover os lábios graciosamente. Sabe que não foi descaso. Sabe o quão sonhador sou. Descobriu que sou tarado por bocas, por lábios, por olhos, bochechas, por covinhas. Se realiza na minha solicitude. Ha uma mulher no poema de passos serenos, mas de ideais firmes. Não quer me provar nada só precisa de amor. Pra adocicar sua jornada. Que escolhe homem a unha. Enfrenta fila e trem lotado. Cria filhos em aperto, mas de noite dança em minhas fantasias. Que não precisa de ninguém pra escolher um vestido, um perfume ou um sonho. Não precisa, mas pede pra compartilhar. Pergunta, pra nos fazer importantes. Ha mulher no poema, QUE ainda não me conhece. E eu preciso crescer para ela. Para merecê-la além do papel. Para um plágio de sua pele num poema de curvas.
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Hoje amanheci com a sensação de não te merecer. Não fazer parte de teu diário das horas. Não contar presença em teu sofá da sala. Acordei e decidi que quero não ser notado quando me esgueirar pelas paredes temendo as sombras de nossos momentos românticos. Quando por descuido meu, perceberes meu declínio, reza por dois dias seguidos, e depois esqueça. É o pago por inflar teu ego em minhas palavras. Mas não se sinta culpada. O desvio já estava lá quando você me acompanhou na estrada. Então porque me engano? Não floreio as tuas esquivas e adubo a esperança? É que só tenho trato com a dor. De uma maneira homicida, eu espero que ela venha. A dor em seu cavalo baio de armadura. Em sua nau nebulosa e flutuante.
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