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sexta-feira, 9 de julho de 2010


Faz tres meses que está morto o homem que eu amava. Antes, mal ou bem, eu amava a vida, porque nós a tinhamos em comum. Antes, eu amava a vida, mesmo sabendo tudo o que já sabia, uma vez que, na imensidão do vazio, lá estava ele sorrindo. Hoje meu querido é um fantasma, uma lembrança. Ainda nele penso todos os dias, a cada minuto, a cada segundo... Constancia absurda. Posso viver o quanto quiser, se é que a gente pode chamar isso de vida, posso transar o quanto quiser, e sair... Eu ainda penso nele. Olho as pessoas, seus passos que as levam para uma finalidade ausente... E, no fundo de mim mesma, sua imagem que me assombra. Eu o conhecia melhor que ninguem. (...) Ele morreu e mais nada faz sentido pra mim. Encaro o futuro como uma eternidade de provações e fastio. Minha covardia me impede de por fim aos meus dias. Vou continuar a sair, a cheirar, a beber e a perseguir os babacas. Até que eu morra. A humanidade sofre. E eu sofro com ela.

Lolita Pille.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

"Desenganada antes do tempo, vomito sobre os sentimentos artificiais. O que a gente chama de amor é apenas o álibi consolador da união de um perverso com uma puta, é somente o véu rosado que cobre o rosto assustador da Solidão invencível. Vesti uma carapaça de cinismo, meu coração é castrado, sou a Dependência lamentável, a zombaria do Engodo universal; Eros com uma foice enfiada na sua alcova. Amor, isto é tudo que a gente encontrou para alienar a depressão pós cópula, para justificar a fornicação, para consolidar o orgasmo.Ele é a quintessência do Belo, do Bem, do Verdadeiro, que remodela a sua cara escrota, que sublima a sua existência mesquinha. Os escritores prediletos, o mal estar de viver, o porquê de sair todas as noites, a primeira noite, seguida de outras mis, não ter mais nada o que dizer, foder pra preencher os vazios, perder até a vontade de foder, se afastar, mas ficando mesmo assim junto, brigar, se reconciliar escondendo que no fim existe o tudo e o nada, ir foder com outras, e depois mais nada. Sofrer.

(Lolita Pille - Hell)

terça-feira, 2 de março de 2010

"O que dizer sobre a felicidade? Nada. Isso enche o saco de todo mundo. A felicidade de uns faz a infelicidade dos outros. Vocês iriam ficar com inveja, mesquinhos. Por que é que as coisas estavam indo tão bem assim para a gente, e não para vocês? Eu também não vou contar para vocês a respeito da minha cara de paleta sorrindo, viu? Isso não se conta, um sorriso, sobretudo com cara de pateta. Eu não vou transcrever para vocês as tolices adoráveis que a gente fica trocando um com o outro ao longo das noites, nem descrever a maneira dele de recolocar as minhas mechas atrás da orelha, a suavidade do rosto dele contra o meu, o seu olhar mergulhado no meu. Como estão vendo, eu caio rapidamente nos piores clichês. Rostos grudados, olhos nos olhos, mão na mão... Como a gente fica babaca quando apaixonada."


(Hell - Lolita Pille)