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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011





A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia.

 Charles Baudelaire

«As ilusões», dizia-me o meu amigo, «talvez sejam em tão grande número quanto as relações dos homens entre si ou entre os homens e as coisas. E, quando a ilusão desaparece, ou seja, quando vemos o ser ou o facto tal como existe fora de nós, experimentamos um sentimento bizarro, metade dele complicada pela lástima da fantasia desaparecida, metade pela surpresa agradável diante da novidade, diante do facto real».

Charles Baudelaire, in 'Pequenos Poemas em Prosa'

terça-feira, 22 de junho de 2010


Tu que, como uma punhalada,
Entraste em meu coração triste;
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito e o ascendente;
- Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como ao baralho o jogador,
Como à garrafa o borrachão,
Como os vermes a podridão,
- Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Que me concedesse a alforria,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Ah! pobre! o veneno e o punhal
isseram-me de ar zombeteiro:
"Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.

Ah! imbecil - de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!" 

Charles Baudelaire.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Por que motivo o espetáculo do mar é tão infinitamente e tão eternamente agradável? Porque o mar oferece, a um tempo, a ideia da imensidade e a do movimento. Seis ou sete léguas representam para o homem o raio do infinito. Eis aí um infinito diminutivo. Que importa, se ele basta para sugerir a ideia do infinito total? Doze ou quatorze léguas de líquido em movimento bastam para dar a mais alta ideia de beleza que se ofereça ao homem no seu habitáculo transitório.

Charles Baudelaire
In:"Meu coração desnudado"
[Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira]

quarta-feira, 31 de março de 2010



Por que motivo o espetáculo do mar é tão infinitamente e tão
eternamente agradável? Porque o mar oferece, a um tempo,
a ideia da imensidade e a do movimento. Seis ou sete léguas
representam para o homem o raio do infinito. Eis aí um infinito
diminutivo. Que importa, se ele basta para sugerir a ideia do
infinito total? Doze ou quatorze léguas de líquido em movimento bastam para dar a mais alta ideia de beleza que se ofereça ao homem no seu habitáculo transitório.

Charles Baudelaire
In:"Meu coração desnudado"

sexta-feira, 19 de março de 2010

Música.

A música me leva como um mar amargo!
À meu pálido astro,
Sob um teto de bruma ou por éter largo,
Iço a vela ao mastro;

O peito para a frente e os pulmões já inflados
Tal qual uma tela,
Subo o dorso dos vagalhões amontoados,
Que a noite me vela;

Sinto vibrar em mim o papel de paixões
De uma nave sofrendo;
O bom vento, a tormenta e suas convulsões

Sobre o abismo horrendo
Me embalam. Outra vez na calma ela é o reflexo
De meu ser perplexo.



(Charles Baudelaire.)

domingo, 20 de setembro de 2009

bebemos.

''E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.''

(Charles Baudelaire)