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quinta-feira, 7 de outubro de 2010


A única coisa mais incocebível do que ir embora era ficar; a única coisa mais impossível do que ficar era ir embora. Eu não queria destruir nada nem ninguém, Só queria sair de fininho pela porta dos fundos, sem causar alvoroços nem consequências, e depois só parar de correr quando chegasse à Groelândia.

Elizabeth Gilbert.

terça-feira, 17 de agosto de 2010


Até agora, no entanto, o que mais gosto de dizer em italiano é uma palavra simples, comum:
Attraversiamo.
Quer dizer: “Vamos atravessar.” Os amigos dizem isso uns para os outros sem parar quando estão andando pela calçada e decidem que chegou a hora de passar para o outro lado da rua. Ou seja, é literalmente uma palavra pedestre. Ela não tem nada de mais. Mesmo assim, por algum motivo, causa-me um efeito poderoso. Na primeira vez em que Giovanni me disse isso, estávamos caminhando perto do Coliseu. De repente, eu o ouvi dizer essa palavra linda e parei, perguntando:
- O que isso quer dizer? O que você acabou de falar?
- Attraversiamo.
Ele não conseguia entender por que eu gostava tanto dessa palavra. Vamos atravessar a rua? Mas, aos meu ouvidos, essa é a perfeita combinação de sonoridades italianas. O a aberto e promissor da primeira sílada, o r enrolado, o s tranqüilizador e a interminável combinação “ii-aaaa-mo” no final. Adoro essa palavra. Agora a digo o tempo inteiro. Invento qualquer desculpa para dizê-la. Isso está deixando Sofie maluca. Vamos
atravessar! Vamos atravessar! Estou sempre puxando-a de um lado para o outro em meio ao tráfego romano enlouquecido. Vou acabar matando nós duas com essa palavra.

Elizabeth Gilbert (Comer, Rezar, Amar)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

'' Se você pedir a uma protestante para se comprometer com um jantar na semana seguinte, ela dirá: ''Quinta-feira à noite está bom para mim.'' Mas, se você pedir a um católico para marcar o mesmo compromisso, ele simplesmente dará de ombros, erguerá os olhos para Deus e perguntará: ''Como é que qualquer um de nós pode saber se vai estar livre para jantar na quinta-feira que vem, já que tudo está nas mãos de Deus e nenhum de nós conhece o próprio destino?''

Comer, rezar, amar - Elizabeth Gilbert

sábado, 27 de março de 2010

- (…) E o amor é sempre complicado. Mas, mesmo assim, os seres humanos precisam se amar, querida. A gente precisa ter o coração partido algumas vezes. Isso é um bom sinal, ter o coração partido. Quer dizer que a gente tentou alguma coisa.
- Meu coração se partiu com tanta força da última vez – falei – que ainda está doendo. Não é uma loucura? Ainda estar com o coração partido quase dois anos depois do fim de uma história de amor?
- Querida, sou do sul do Brasil. Sou capaz de ficar com o coração partido durante dez anos por causa de um mulher que nem cheguei a beijar.
Elizabeth Gilbert in “Comer, Rezar, Amar”

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Mente de macaco,



Como a mair parte dos humanóides, carrego o fardo daquilo que os budista chamam de “mente de macaco” – pensamentos que pulam de galho em galho, parando apenas para se coçar, cuspir e guinchar. Desde o passado remoto até o futuro desconhecido, minha mente fica pulando a esmo pelo tempo, tendo dúzias de idéias por minuto, descontrolada e sem disciplina. Isso, em si, não é necessariamente um problema; o problema é o apego emocional que acompanha o pensamento. Pensamentos felizes me tornam feliz, mas – vupt! – com que rapidez torno a me prender a preocupações obsessivas, estragando a felicidade; e então basta a lembrança de um momento de raiva pra eu começar a ficar exaltada e brava de novo; então minha mente decide que aquela pode ser uma boa hora para começar a sentir pena de si mesma, e a solidão não demora a chegar. Afinal de contas, você é o que você pensa. As suas emoções são escravas dos seus pensamentos, e você é escravo de suas emoções.
O outro problema de toda essa pulação pelos galhos do pensamento é que nunca está onde está. Você está sempre remoendo o passado ou especulando sobre o futuro, mas raramente pára no momento presente. É um pouco como o hábito da minha amiga Susan, que – sempre que vê um lugar bonito – exclama, quase me pânico, “Que lindo isto aqui! Quero voltar aqui algum dia!”, e preciso lançar mão de todo o meu poder de persuasão para tentar convence-la de que ela já está lá.

Elizabeth Gilbert in “Comer, Rezar, Amar”