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quinta-feira, 19 de maio de 2011


Certa vez eu pensei que havia sido ferido como nenhum outro homem jamais tivera sido. Por sentir isso, eu prometi a mim mesmo escrever esse livro. Mas bem antes de começá-lo, a ferida havia sido curada. Já que eu havia feito a promessa eu reabri a terrível ferida.
Em outras palavras...Talvez ao abrir a ferida, minha própria ferida, eu tenha fechado as feridas de outras pessoas. Algo morre, algo floresce. Sofrer na ignorância é terrível. Sofrer deliberadamente, para entender a natureza do sofrimento e aboli-lo para sempre, é outra coisa. Buda teve um pensamento fixo em sua vida, como sabemos. Eliminar o sofrimento humano.
Sofrer é desnecessário. Mas a pessoa deve sofrer antes de poder perceber isso. É apenas então, aliás, que o verdadeiro significado do sofrimento humano fica claro. No último desesperador momento - quando a pessoa não pode sofrer mais! - acontece algo que é como um milagre. A grande ferida aberta que estava sangrando o sangue da vida se fecha, e o organismo floresce como uma rosa. A pessoa está "livre" afinal, e não "com um anseio pela Rússia", mas com um anseio por sempre mais liberdade, sempre mais satisfação. A árvore da vida é mantida viva não por lágrimas mas pela sabedoria de que a liberdade é real e eterna.

Henry Miller.

"Esta linguagem sempre me pareceu clara e lúcida. A linguagem da razão, que não é a linguagem do senso comum, cheirando a gíria. Quando Deus faz avançar a mão que empunha a pena, o autor já não sabe o que escreve, o autor já não sabe o que escreve. Os sábios lêem-na de uma forma, os homens de Deus, de outra. O poeta fala somente ao poeta. O espírito responde ao espírito. O resto é comida para os porcos."


Henry Miller.

"Escrever, reflecti, deve ser um acto despido de vontade. A palavra, como a profunda corrente oceânica, deve subir à superfície impelida pelo seu próprio impulso. Uma criança não tem necessidade de escrever, é inocente. Um homem escreve para se libertar do veneno que acumulou, em consequência do seu falso modo de vida. Tenta recapturar a sua inocência, mas só consegue (escrevendo) inocular na palavra o vírus da sua desilusão. Nenhum homem escreveria uma palavra se tivesse a coragem de viver de acordo com aquilo em que acredita. A sua inspiração é desviada do verdadeiro caminho logo na origem. Se é um mundo de verdade, beleza e magia que deseja criar, porque coloca milhões de palavras de permeio, entre ele e a realidade desse mundo? Porque protela a acção, a não ser que, como outros homens, aquilo que realmente aspira seja poder, fama e êxito?"
 
Henry Miller, in Sexus.

"Ah, Tânia, onde está aquela sua buceta quente, aquelas ligas fartas e pesadas, aquelas coxas macias e cheias? Meu pau tem um osso de quinze centímetros de comprimento. Tânia, vou alargar todas as pregas da sua buceta, cheia de sêmen. Vou mandar você para o seu Sylvester em casa com dor na barriga, o ventre virado do avesso. O seu Sylvester! Sim, ele sabe acender uma lareira, mas eu sei atiçar uma buceta. Vou enfiar dardos quentes em você, Tânia, vou deixar seus ovários em fogo. O seu Sylvester está com certo ciúme? Ele sente alguma coisa, não é? Sente os efeitos do meu pau grande. Alarguei um pouco os lados. Passei a ferro as dobras. Depois de mim, você pode ficar com garanhões, touros, carneiros, cisnes, cães São Bernardo. Pode enfiar sapos, morcegos e lagartos pelo reto. Se quiser, pode cagar em arpejos o dedilhar uma títara no umbigo. Estou lhe fodendo, Tânia, para que você fique fodida. E se tem medo de ser fodida em búblico, eu lhe fodo a sós. Vou arrancar alguns pentelhos da sua buceta e grudá-los no queixo de Bóris. Vou morder o seu clitóris e cuspir dois francos em moedas."

Henry Miller - Trópico de Câncer, pág. 11.




"Sou como um imbecil com um abridor de latas na mão, sem saber por onde começar - para abrir o mundo. Eu sei que por baixo da sujeira tudo é maravilhoso. Tenho certeza. Eu sei disso porque eu próprio me sinto bem a maior parte do tempo".

Henry Miller - "Sexus".

"Simplesmente ver Nys comer era inspirador. Ela sentia prazer em cada naco de comida, que selecionava com grande cuidado. Por cuidado não me refiro a qualquer preocupação com calorias e vitaminas. Não, era cuidadosa no sentido de escolher as coisas de que gostava e que combinavam com ela , porque lhe davam satisfação. (...) Uma boa refeição, uma boa conversa, uma boa foda - que maneria melhor de passar o dia? Não havia vermes devorando a sua consciência, preocupações que não pudesse jogar fora. Flutuar com a maré, era o que bastava. Não teria filhos, não faria nenhuma contribuição para o bem-estar da comunidade, não deixaria nenhuma marca sobre o mundo quando partisse. Mas, onde quer que fosse, tornaria a vida mais fácil, mais atraente, mais odorosa. (...) Queria eu também poder levar a vida da mesma maneira descontraída e natural. Às vezes, desejava ser uma mulher como ela, possuindo nada mais do que uma boceta atraente. Como seria maravilhoso botar a boceta da gente para trabalhar e usar o cérebro apenas para o prazer! Apaixonar-se pela felicidade! Tornar-se tão inútil quanto possível! Criar uma consciência tão dura quanto a pele de um crocodilo! E, na velhice, não mais atraente, comprar uma foda, se necessário. Ou comprar um cachorro e treiná-lo para fazer o que era preciso. Morrer, quando a hora chegasse, nua e sozinha, sem culpa, sem arrependimento, sem remorso..."

Henry Miller - Dias de paz em Clichy

sexta-feira, 16 de julho de 2010


De vez em quando, é verdade, eu pensava em Mona, não como uma pessoa num determinado tempo e espaço, mas isolada, destacada, como se tivesse explodido numa grande forma parecida com uma nuvem que obscurecia o passado. Não me permitia pensar nela por muito tempo, senão pularia da ponte. É estranho. Eu tinha me acostumado tanto àquela vida sem ela mas, se pensava nela só um instante, já penetrava no osso e na medula da minha alegria e me jogava de novo no esgoto agonizante do meu miserável passado.
Passei sete anos com uma só coisa na cabeça, dia e noite: ela. Se houvesse um cristão tão fiel ao seu Deus quanto eu a ela, hoje seríamos todos Jesus Cristos. Dia e noite eu pensava nela, mesmo quando a estava enganando. (...)
Quando sinto que ela foi embora, talvez para sempre, abre-se um grande vazio e sinto estar caindo, caindo, caindo no espaço profundo e escuro. E isso é pior do que chorar, mais do que se arrepender, sentir dor ou tristeza; é o abismo onde Satanás mergulhou. Não há como voltar, nenhum raio de luz, nenhum som de voz ou toque de mãos humanos.
Quantas milhares de vezes, andando por aquelas ruas à noite, pensei se algum dia ela voltaria para mim.

Henry Miller.




Não sabem quem eu sou nem de onde eu vim. Só conseguem enxergar o que eu revelo. nunca olham por baixo do pano. se eu rio, acham que estou alegre. E não sabem que às vezes quando eu rio com força demais, é que estou à beira do desespero. 

Henry Miller.- sexus.

terça-feira, 11 de maio de 2010


Eu a amo, de corpo e alma. Ela é tudo para mim. E no entanto não se parece em nada com as mulheres sonhadas, aquelas criaturas ideais que eu adorava quando menino. Não corresponde a nada que eu tenha concebido na profundeza de meu ser. É uma imagem totalmente nova, algo estranho, algo que o destino roubou de alguma esfera desconhecida para lançar no meu caminho. Olhando para ela, amando-a pedacinho por pedacinho, verifico que a sua totalidade me escapa. Meu amor se acrescenta como uma soma, mas ela, a mulher que procuro com um amor desesperado e faminto, me escapa como um elixir. É completamente minha, de uma maneira quase servil, mas eu não a possuo. Eu é que sou possuído. Sou possuído por um amor que nunca antes se tinha oferecido a mim: um amor absorvente, amor total, amor até as unhas do pé e a sujeira debaixo delas - e, no entanto, minhas mãos estão sempre esvoaçando, sempre procurando agarrar e segurar, aprisionando o vácuo.

Henry Miller - Sexus

terça-feira, 13 de abril de 2010

"Sofrer é desnecessário. Mas temos de sofrer antes de sermos capazes de perceber que isto é assim mesmo. Somente então o verdadeiro significado do sofrimento humano fica claro. No último momento desesperado - quando já não podemos sofrer mais! - algo acontece, com a natureza de um milagre. A grande ferida aberta que vertia o sangue da vida se fecha, o organismo floresce como uma roseira. Estamos "livres", por fim, e não "com saudades da Rússia", mas com a ânsia de mais liberdade, de mais felicidade. A árvore da vida é mantida viva não por meio de lágrimas, mas pelo conhecimento de que a liberdade é real e
perpétua."

(Henry Miller)