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quinta-feira, 18 de novembro de 2010


E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético.
Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela.

Rubem Alves.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010


 "Não sabia que era precisamente esse fracasso que me levaria ao lugar que desejava. As correntes do rio profundo foram mais generosas que o meu remar contra elas. Não cheguei aonde planejei ir. Cheguei, sem querer, aonde meu coração queria chegar, sem que eu o soubesse."
.
(Rubem Alves)

segunda-feira, 19 de julho de 2010


"Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros,
tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto
de brincar. Que mais posso desejar? Se eu
pudesse viver minha vida novamente, eu a
viveria como a vivi porque estou feliz
onde estou."
 
Rubem Alves.

sexta-feira, 30 de abril de 2010


“Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam ....
Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores . E para isso fundaram escolas e importaram professores, gargarejavam do-ré-mi,fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre sí, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam por Vossa Excelência .
Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida . A floresta foi invadida por um bando de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas com os sabiás ...
Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa, e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito :-
-- Onde estão os documentos do seus concursos ?
E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem . Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas . E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam , simplesmente ...

-- Não, assim não pode ser . Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.

E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás ...”

Moral :
EM TERRA DE URUBUS DIPLOMADOS NÃO SE OUVE CANTO DE SABIÁ.

(Rubem Alves)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

"Então você está confusa com seus sentimentos. Ele apareceu tão de repente na sua vida, com aquele brilho manso no olhar, com aquela meiguice na voz, sem pedir coisa alguma, meio como um Pequeno Príncipe caído de um asteróide. A princípio você nada percebeu de diferente. O susto veio quando você se lembrou das palavras da raposa, explicando ao Pequeno Príncipe o que era ficar cativo: É assim. A princípio você senta lá e eu aqui. Depois a gente vai ficando cada vez mais perto. Os passos de todos os homens me fazem entrar dentro da minha toca. Mas os seus passos me fazem sair. E, depois, é a alegria. Começo a ficar alegre e a me preparar na segunda-feira, sabendo que você só virá na sexta."

[Rubem Alves]

sexta-feira, 23 de abril de 2010

“(…) Cada momento de beleza vivido e amado, por mais efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira.”

Rubem Alves

terça-feira, 20 de abril de 2010

Levou tempo para que eu percebesse que quem presta muita atenção no que é dito não consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Se eu fosse você”

quarta-feira, 24 de março de 2010

Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,
a qualquer momento, ele pode voar

Rubem Alves

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Palavras, apenas palavras, pequenas, palavras.

"Todas as palavras tomadas literalmente são falsas. A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua: toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio!"

(Rubem Alves)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Medo de anestesia.

Há também as dores da alma que nenhuma cirurgia consegue curar. O medo, por exemplo, não pode ser amputado. Pena. Porque o medo paralisa a vida. Dominada pelo medo, a vida se encolhe, perde a capacidade de lutar, entrega-se à morte. Animais amedrontados se deixam matar sem um único gesto de defesa. E, pelo que sei, as pessoas têm muito medo da anestesia, medo que chega a beirar o pânico, mais medo da anestesia que da violência do ato cirúrgico. É que elas têm medo de dormir. Quem dorme está indefeso, à mercê. Quem está dormindo volta a ser criança. As crianças têm medo de dormir. Por isso elas choram, não querem dormir sozinhas, desejam alguém ao seu lado. Alguém que cuide delas enquanto elas dormem. As canções de ninar são para tirar o medo a fim de que o sono seja tranqüilo.
 
Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– O Anestesista”
 

Sim, porque ao meu redor tudo continua o mesmo. É uma idéia que me dói – dor-de-idéia que não é para ser curada. É para ser sofrida. Saber sofrer é parte da sabedoria de viver.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Dor-de-Idéia”

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Assim é o amor. A tristeza amorosa é o vazio desejando o pleno. Sócrates inventou um mito para explicar o amor. Disse que Eros nasceu do casamento entre a “Pobreza” e a “Plenitude”. O amor é um buraco na alma. Quem ama é pobre. Falta alguma coisa. Peça desencaixada do quebra-cabeça. O sentimento amoroso é a nostalgia pelo pedaço que me falta, “pedaço arrancado de mim”. Assim são o masculino e o feminino.
O masculino é o pleno que ora pelo vazio que o abraçará.
O feminino é o vazio que ora pelo pleno que nele se encaixará. Quando os amantes se abraçam e as peças se interpenetram, os corpos se encaixam, como no quebra-cabeça. Todo ato de amor é uma realização efêmera de uma unidade original perdida.
Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Se eu fosse você”

quinta-feira, 19 de novembro de 2009






Tem razão o poeta: “O amor é a coisa mais triste quando se desfaz.” É triste por causa do retrato:
porque ele faz lembrar uma felicidade que se teve e que não se tem mais. O retrato é uma sepultura.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Por que a rosa não mais floresce?”

domingo, 15 de novembro de 2009

Ninguém engole sapo de livre vontade. Engole porque não tem outro jeito. Tem sempre alguém que nos obriga a engolir o sapo, à força. A pessoa que nos obriga a engolir o sapo, a gente nunca mais esquece.
Diz a Adélia que “aquilo que a memória amou fica eterno”. Aí eu acrescento algo que aprendi no Grande sertão. Conversa de jagunços matadores. Diz um: “Mato mas nunca fico com raiva.” Retruca o outro, espantado: “Mas como?” Explica o primeiro: “Quem fica com raiva leva o outro para a cama.” É isso. A gente leva para a cama a pessoa que nos obrigou a engolir o sapo. A raiva também eterniza as pessoas. Não adianta falar em perdão. A gente fica esperando o dia em que ela também terá de engolir um sapo.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
- A arte de engolir sapos”

domingo, 8 de novembro de 2009


As casas estão ligadas ao amor. “Tu não te lembras da casinha pequenina onde o nosso amor nasceu? Tinha um coqueiro do lado que – coitado! – de saudade já morreu”. O amor por uma pessoa começa do mesmo jeito como começa o amor por uma casa.
Vem primeiro o visível: a gente vê a casa, a gente vê um rosto, um corpo. E aquele sentimento de querer morar naquela casa, de querer morar naquele corpo … O que se imagina não pode se comparar ao que se vê. O que se vê é apenas um ponto em torno do qual a imaginação pinta a cena de felicidade. Sim, quero morar na casa, essa casa que vejo, de paredes brancas e janelas azuis porque estou amando tudo aquilo que acontecerá nela. Amo a casa de paredes brancas e janelas azuis pelos sonhos que a envolvem.
Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Por que a rosa não mais floresce?”