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segunda-feira, 29 de novembro de 2010


Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou …
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

(Florbela Espanca)

E a minha boca tem uns beijos mudos…
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar.
(Florbela Espanca)

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onte está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Costrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho… que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jadim,

Num país de ilusão que nunca vi…
E que eu moro – tão bom! – dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim…


A Nossa Casa
de Florbela Espanca.

sábado, 21 de agosto de 2010


Há nos teus olhos de oiro um tal fulgor
E no teu riso tanta claridade,
Que o lembrar-me de ti é ter saudade
Duma roseira brava toda em flor.

Tuas mãos foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade
São como a alma a arder do próprio amor!

Nasci envolta em trajes de mendiga;
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de oiro de rainha!

Tua irmã... teu amor... e tua amiga...
E também - toda em flor - a tua filha,
Minha roseira brava que é só minha!...

Florbela Espanca

terça-feira, 17 de agosto de 2010

  
"Eu não sou boa nem quero sê-lo, 
contento-me em desprezar quase todos, 
odiar alguns, estimar raros e amar um."


(Florbela Espanca)

quinta-feira, 15 de abril de 2010


 (...)

Sei lá! Sei lá!
Eu sei lá bem quem sou?
Um fogo-fátuo, uma miragem,
Sou um reflexo, um canto de paisagem,
Ou apenas cenário.
Um vaivém.

(Florbela Espanca)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Indalicia,

A minha dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras,arcarias
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural
Os sinos tem dobres de agonias
Ao gemer,comovidos, o seu mal...
E todos têm som funeral
Ao bater horas no correr dos dias
A minha dor é um convento.Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento onde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro
E ninguém ouve...ninguém vê...ninguém.

(Florbela Espanca)

quarta-feira, 24 de março de 2010

Fanatismo.












Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és se quer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio do Fim!..."

(Florbela Espanca)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

 

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui...além...
Mais este e aquele, o outro e toda a gente....
Amar!Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar.

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar..."


Florbela Espanca 

sábado, 12 de dezembro de 2009

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho,e desta sorte
Sou a crucificada, a dolorida.

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida.

Sou aquela que passa e ninguém vê.
Sou a que chamam triste sem o ser.
Sou a que chora sem saber porquê.

Sou talvez a visão que alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca